Orgulho Linguístico Brasileiro e Línguas da Copa do Mundo

É possível alguém falar todas as línguas do mundo? Ninguém teve essa pretensão e, mesmo que a tivesse tido, morreria antes de alcançar tal objetivo – admitindo que a cabeça humana seja capaz de armazenar tanta informação sobre milhares de línguas e supondo que seja possível alongar a vida humana por mais algumas décadas para facilitar a tarefa. Enquanto brasileiro, eu nunca pensei nisso, embora tenha feito do estudo de línguas estrangeiras um dos meus hobbies tempos atrás.

Sem modéstia à parte, eu posso “me virar” em qualquer língua da Europa Ocidental, em termos de pronúncia e de um mínimo de conversação. Assim acontecia, por exemplo, nos tempos em que viajava muito pela maioria dos países do Velho Continente. Essa certa facilidade vem dos meus tempos de adolescente, quando experimentei um pouco das mais importantes línguas do mundo, mas sem método, sem professor e sem escola. Agora, para “me virar de verdade”, isso só posso dizer em relação a umas três línguas européias, sem precisar mentir ao escrever meu currículo Lattes. É isso que me deixa à vontade para escrever este artigo, mas sem reivindicar qualquer ilusão de ser especialista.

O que me motiva mesmo a pôr no papel essas idéias é a observação antiga de que, em tempos de Copa do Mundo, agrava-se a tendência que têm os brasileiros de pronunciar “corretamente” palavras de línguas estrangeiras – coisa que me faz pensar que os brasileiros não temos orgulho da língua brasileira. Com efeito, para mostrar que somos escolarizados, educados ou civilizados, insistimos em pronunciar “corretamente” uma palavra francesa ou outra inglesa e ainda nos aventuramos noutras línguas ou então pedimos desculpas por não saber fazê-lo. É aí que começa a confusão geral. Para evitar uma longa conversa e ir direto ao assunto, tomarei só o caso dos locutores e comentaristas de futebol na TV e no rádio.

Invariavelmente, eles se esforçam para bem pronunciar nomes estrangeiros, não abrasileirando ou aportuguesando os mesmos, mas se arriscando a pronunciá-los como os estrangeiros fazem em seus países. Torna-se insuportável ouvir Galvão Bueno (“Cala a boca, Galvão!”), Kleber Machado, Luís Roberto e tanto outros cometerem “erros grotescos” em línguas mais próximas dos brasileiros como em línguas distantes. Isso é muito corrente, seja em palavras de línguas européias, seja em relação a línguas africanas, asiáticas e demais. Interessa-me aqui discutir de onde vem esse problema agora que o português tem se transformado em língua internacional. Eu tenho um palpite: isso tem a ver com o velho complexo de colonizado e não condizente com uma postura de orgulho nacional.

Com efeito, enquanto colonizados ainda pensamos no português como “última flor do Lácio, inculta e bela, esplendor e sepultura”, como dizia o poeta. Atentem para as palavras: inculta e sepultura. Paulo Francis, jornalista trotisquista depois tornado militante de direita, dizia que o português é uma “língua morta”.  Por conta dessa histórica auto-percepção de colonizado, sentimo-nos “obrigados” a falar bem a língua dos outros, e especialmente aquelas dos nativos dos países ricos do Ocidente. Agora dou exemplos. Um sergipano amigo meu que durante alguns residiu França era chamado de senhor “guá”, quando seu nome em português é Gois.  A mim, que também por lá passei uma temporada, chamavam de “afonsô” ou “alfonsô”, mais perto do seu Alphonse.

Nos Estados Unidos, onde a diversidade lingüística na origem dos seus nacionais é muitas vezes maior do que a brasileira, os seus nativos criaram regras para americanização de palavras não anglo-saxônicas (incluídas as brasileiras), pois, do contrário, a comunicação ficaria complicada. Faço um resumo: franceses “afrancesam” e ingleses e americanos “anglicizam” ou “americanizam” palavras portuguesas e outras. Tomando agora palavras francesas de brasileiros que nós brazucas pronunciamos à francesa, os franceses “abrasileiram” para diferenciar da pronúncia francesa. Este é o caso do nome piquet, palavra francesa do piloto brasileiro, que se torna “piquete”, para diferenciar do piquet  “francês” com tê mudo e ênfase na vogal final. Um americano pronunciará a palavra francesa “gare” de “guer”, com erre rolado. Por outro lado, o brasileiro deveria dizer “gare” como está escrita, ao invés de omitir a última vogal, como se faz em francês. E não o faz. Santos Dumont deveria ser “santos dumonte”, com a última consoante pronunciada. Isso é uma forma de marcar uma identidade nacional através da língua.

No caso do Brasil ainda tem mais uma complicação. Por conta do período em que o francês era a língua das elites culturais do país, guardou-se até hoje o hábito de pronunciar palavras inglesas como card, ford, etc., com a pronúncia francesa, quando seria mais fácil e politicamente recomendável pronunciar à brasileira com o dê no final, por exemplo. Um pouco mais sobre o Brasil, melhor seria abrasileirar as centenas de palavras inglesas que nos chegam ininterruptamente dos Estados Unidos em virtude de sua hegemonia cultural e científica no mundo. O mesmo deve ser dito em relação às outras centenas palavras italianas ( vejam o horroroso curso de italiano da novela das 8 da Globo) e alemãs.

Curiosamente, é assim que faz o brasileiro das classes populares quando se vê diante de uma palavra estrangeira de uso não corrente na mídia. Ele a abrasileira. Faz a coisa certa, sem ter a menor idéia da dimensão política do ato simples e importante do abrasileiramento das palavras estrangeiras. Mas nossas elites culturais, que deveriam imprimir esse modelo para todos os brasileiros, teimam em manter essa mentalidade de colonizado em termos de comportamento lingüístico.

Antes que me chamem de novo Policarpo Quaresma ou, pior, de Aldo Rebelo, volto então ao parágrafo com o qual abri esse artigo. Como é impossível falar todas as línguas do mundo ou todas as línguas da Copa do Mundo, o recado que precisa ser mandado aos nossos comentaristas esportivos é que eles abrasileirem a pronúncia das línguas dos países que estiveram ou ainda estão na África do Sul porque jamais conseguirão pronunciar “corretamente” aquelas palavras com muitas vogais, com muitas consoantes juntas ou acentos estranhos. Essa atitude reforçará o orgulho de ser brasileiro que parece ser tão forte, mesmo com Dunga e sem Ganso e Ronaldinho, em época de Copa do Mundo.

Escrito por José Afonso Nascimento

Professor do Departamento de Direito da Universidade Federal  de Sergipe

~ by Martin on July 18, 2010.

 
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